quinta-feira, 20 de novembro de 2014

20.000 DAYS ON EARTH (2014) de Iain Forsyth & Jane Pollard



 Hoje em dia a ideia do filme documentário tem vido a ser fortemente alterada, desafiada e esticada até aos seus mais estranhos e artificiais limites. Isto a leva a obras como esta, um filme em que qualquer tipo de categorização entre ficção e documentário, parecem dúbias e até fúteis. Um filme inclassificável, por vezes fascinante, por vezes perdido na sua pomposidade.

 Antes de mais, seria apropriado descrever um pouco o filme e a sua premissa inicial, que nunca passa de um leve conceito, sendo apenas um pretexto para uma sequência inicial e para o título. O filme explora, de um modo extremamente fictício, a persona e o trabalho de Nick Cave, sendo que se apoia numa ideia de reflexão, numa ideia de 24 horas com o artista, em que exploramos o legado dos dias que antecederam este dia pelo filme capturado.

 Isto é abertamente proposto pelo filme na sua sequência de abertura, em que vemos imagens em vários ecrãs, um mar de imagens velozes em que vemos o passar da vida do músico, sendo que isto é acompanhado por uma contagem dos dias vividos por este, até chegarmos ao dia 20.000, o dia de que o filme iria tratar. O filme não é nenhuma obra de cinema verite em que os realizadores foram capturando esse dia na vida de Cave, está bastante longe disso ou de qualquer pretensão de realidade.

 Esta é uma obra abertamente artificial na sua criação, pelo que apenas o mais inocente dos espetadores poderia julgar o que é apresentado como um dia normal na vida de Cave. O filme mais se assemelha a um filme sobre um músico que reflete, maioritariamente num crescentemente irritante e pomposo voz-off, sobre a sua vida, a sua carreira e a sua relação com sua arte. Um filme em que Cave se interpreta a si próprio no que se assemelha a uma construção fictícia do artista sobre a sua própria figura. Um autorretrato de Cave possibilitado pelo trabalho dos realizadores, e tal como qualquer autorretrato, o filme é uma obra de cuidado artificialismo e técnica na criação da imagem de uma personalidade no seu centro.

 O filme com a sua cuidada mise-en-scène e sua prodigiosa e bastante polida fotografia, cria em si mesmo uma mentira, uma fantasia. Uma ficção a partir da qual se tenta chegar a alguma realidade. Onde se tenta obter uma reflexão, uma visão da realidade de Cave. O artista chega mesmo a falar do modo como usa as suas memórias de pessoas que o marcaram como modo de criar as suas obras. Ele falseia, mitifica, dilui a verdade de modo a criar a sua música. Do mesmo modo, os realizadores do filme trabalham estas suas visões de Cave criando uma mistura entre autorretrato e retrato, uma reflexão de Cave sobre si mesmo e uma mitificação do mesmo feito a partir de um ponto de vista exterior, mas sem dúvida reverente.

 Existe então uma grande ênfase na memória, algo que não é de algum modo escondido pelo filme ou mesmo explorado com qualquer subtileza. Recorre-se a uma cena de terapeuta em que vemos de uma perspetiva psicanalítica essa exploração de Cave pelas memórias do seu passado e mais à frente temos longos momentos em que Cave utiliza fotografias para refletir sobre si mesmo. Em resumo, o filme torna explícito todas estas suas intenções.

 Combine-se esta explícita intensão de autorreflexão com a persistência num voz-off incessante de Cave, o que leva a que o filme, por vezes, pareça vergar sob o peso da pomposa autorreflexão e até auto mitificação das palavras de Cave. Teno de admitir que, de um ponto de vista puramente pessoal, chegado aos momentos finais do filme já me encontrava um pouco saturado das palavras vagarosas e de uma dimensão quase de reverência crítica à sua própria imagem de Cave. Não que, especialmente no início do filme, as suas palavras não contenham em si um grande interesse, uma visão à mente do artista, mas depois de todo o decorrer do filme e a sua persistência num apoio totalmente dependente nas palavras faladas de Cave, existe um certo cansaço e até repetição de ideias já suficientemente expostas.

 Apesar de tudo isso, existem algumas cenas e sequèncias em que o filme realmente brilha e se parece soltar um pouco da rigidez imposta pela recorrência constante ao voz-off de Cave. Falo da sua estranha e quase sonhadora cena com Kylie Minogue num carro guiado pelo músico, em que as duas estrelas de mundos musicais bem diferentes parecem unir-se neste mundo de ruminações intelectuais sobre a sua própria figura como celebridades e como artistas. Mas também me refiro a todos os momentos musicais que pontualmente vão ocorrendo ao longo do filme, culminando no concerto que o encerra.

  Enquanto via o filme perguntava-me se a razão para a minha tão maior apreciação dos momentos musicais em relação ao resto do filme provinha de alguma subjetividade devida ao facto de realmente apreciar o trabalho de Cave, ou se seria a genuinidade estranha e quase alienígena que essas cenas trazem em comparação com o artificial estudado do resto do filme. Nessas cenas existe uma deliberada e genuína teatralidade, que no resto do filme chega a parecer um pouco forçada. Acabei por não ter grande resposta a não ser a que durante estas cenas o filme parece desafiar e quebrar as suas barreiras estruturais autoimpostas, fugindo um pouco ao caráter de reflexão pela artificial voz-off do filme e substituindo esse mecanismo pela música de Cave, que acaba por ser um modo de autorreflexão de Cave que parece surgir muito mais livremente que a sua quase interpretação de si próprio ao longo do restante filme.

 O final, que acompanha um concerto de Cave, chega aos píncaros do filme. Aí parece que a, por vezes repetitiva, dissecação, que o filme tenta realizar sobre a figura de Cave, se manifesta como uma exploração do que está por detrás desta música, desta obra final. O filme parece revelar-se como um filme sobre a criação artística, sobre os caminhos de Cave para obter as suas obras. No final todas as peças parecem montar-se num mecanismo perfeitamente funcional e dinâmico. Talvez até terá sido essa exuberância energética e conceptualmente unificadora que fez com que, para mim, as cenas musicais, nomeadamente o final, empalidecessem em relação ao filme que se desenrola para além destes momentos.

 De qualquer modo, independentemente das minhas objeções ou dúvidas em relação ao filme, que acho que se limita estruturalmente a si próprio, nunca explorando o que a sua inicial premissa realmente parece propor, acabando por cair numa recorrente repetição, penso que esta é uma fascinante obra documental. É interessante verificar os limites do documentário, mesmo que num modo mais convencional como esta obra, bem longe das grotescas encenações de The Act of Killing por exemplo. Talvez isso seja uma falta de objetivismo pessoal e uma sedução da música de Cave face ao filme e à minha perspetiva da obra, mas não consigo negar que penso neste, como um documentário de mérito, em que existe um potencial, infelizmente não completamente explorado pelos seus criadores.

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