terça-feira, 18 de agosto de 2015

MAGIC MIKE XXL (2015) de Gregory Jacobs



 Quase me sinto mal por só agora ter visto Magic Mike XXL, apenas quando está quase a sair dos cinemas. Sinto-me mal, pois isso faz deste texto algo um pouco despropositado, tendo em conta que muito brevemente o filme não estará disponível a não ser que esperemos pela sua distribuição em DVD e Blu-Ray, mas também me sinto mal porque passei quase dois meses a privar-me a mim mesmo da oportunidade e do prazer de ver o filme em si.

 O filme, realizado pelo antigo assistente de realização de Steven Soderbergh, inicia-se três anos depois da narrativa do filme anterior ter acabado, sendo que Mike tem agora o seu tão desejado negócio de mobiliário. No entanto, quando o grupo de antigos colegas e amigos do último filme aparece e o alicia a partir com eles numa viagem para uma convenção de strippers, como uma despedida final aos seus anos na profissão, Mike vai com eles, deixando para trás o seu negócio em pausa e a sua namorada, que descobrimos ter recusado um pedido de casamento do protagonista. O resto do filme simplesmente acompanha o grupo de amigos na sua viagem, parando em bares, clubes e até mansões sulistas, normalmente para deliciar a audiência tanto com sequências de dança como com uma coleção deliciosa de personagens secundárias. Não existe grande conflito, e o final não oferece grande resolução a nada, todo o filme se movimenta relaxadamente ao longo de duas horas fazendo o máximo para entreter a sua audiência. 

 Esse mesmo tom de diversão simples é o grande trunfo do filme, que parece recuar de qualquer oportunidade para acrescentar dramatismo ou peso às suas personagens, o que realmente o distingue do seu predecessor. Enquanto o filme de Steven Soderbergh era um drama que olhava e comentava a situação económica atual, explorando o corpo masculino como uma fonte de estabilidade económica, este filme é uma comédia leve, um road movie perfeito para uma tarde de Verão. Não há aqui grande complexidade apesar de algum desenvolvimento das personagens dos strippers, e da exclusão de alguns dos elementos mais negros ou desconfortáveis do filme anterior como as personagens de Matthew McConaughey e Alex Ptyffer. O filme até tem um refrescante sentido de humor que não desaparece nem nas cenas de strip, aqui condimentadas com uma boa dose de gozo e alegre despreocupação.

 Muito do filme parece ser, francamente, criado num laboratório de modo a perfeitamente corresponder às expetativas da sua audiência. Os problemas ou reticências mostradas para com o filme anterior desaparecem. O filme acrescenta um grande número de personagens femininas, admite e olha o apelo do filme a uma audiência homossexual masculina, dá muito mais relevo à audiência das cenas de strip que o filme anterior, mostra-nos uma presença afro-americana, e até acrescenta mais números musicais. Talvez um dos únicos componentes do filme que não parece corresponder aos desejos da audiência alvo é a relativa falta de nudez do filme. Enfim, não se pode ter tudo.

 Admito que o filme seja culpado de tentar satisfazer a sua audiência alvo em demasia, mas quando os resultados são tão bons como este é difícil alguém se queixar. Apesar desse desejo de satisfação, o filme não se deixa tornar banal ou desenxabido nos seus aspetos técnicos, formais ou mesmo performativos, sendo cuidadosamente concebido por uma equipa que em si inclui o próprio Steven Soderbergh como produtor executivo, editor e diretor de fotografia do filme.

 Os filtros amarelos que tornavam até as mais solarengas praias de Magic Mike em paisagens doentias e subtilmente desconfortáveis, aqui desaparecem. Este é um filme muito mais colorido, mais preocupado em criar um ambiente de beleza visual que em desafiar a audiência com os as suas escolhas estéticas. Os movimentos da câmara de Soderbergh nunca foram tão dinâmicos como na sequência final, e a sua iluminação também raramente foi tão colorida ou primorosa como aqui. O primeiro encontro entre Channing Tatum e Amber Heard, iluminados por um contraluz distante, é particularmente belo na sua simplicidade, desenhando as duas figuras em contornos luminosos na escuridão. Mas ainda melhor que a fotografia é a montagem de Soderbergh, tendo aqui encontrado um ritmo vagaroso mas nunca aborrecido, sempre parecendo estar em desafio da usual maneira de apresentar os momentos e cenas. O que quero dizer com isto é particularmente explicável pela observação de uma sequência na mansão de uma rica mulher sulista interpretada por Andie MacDowell. Aqui, quando ocorre uma festa improvisada entre um grupo de mulheres e os protagonistas do filme, a montagem parece contra intuitivamente focar-se muito mais nas reações silenciosas das mulheres, afastando o olhar do espetador até quando a personagem de Matt Bommer começa a cantar para uma das amigas do grupo.

 Mas não é só o trabalho de Soderbergh que demonstra o cuidado e precisão com a criação do filme, o elenco também é de felicitar. Os atores que voltam do filme anterior estão aqui muito mais relaxados e fixados num registo de humor descontraído, apoiando-se mais no seu carisma que em qualquer complexidade psicológica. Joe Manganiello é particularmente fantástico, quase que roubando o filme a Tatum, e tendo um dos melhores momentos do filme, uma dança meio ridícula meio sexy numa loja de conveniência.

 Mas são os novos membros do elenco que realmente marcam a diferença entre este filme e seu antecessor. Andie MacDowell e Amber Heard já foram aqui mencionadas e ambas são uma brisa de ar fresco. McDowell é especialmente deliciosa na sua criação de uma divorciada sulista com uma atitude imensamente positiva sobre sexo, que se diverte e se embebeda na companhia dos rapazes, pontuando uma das mais divertidas sequências no filme. Outros atores como Donald Glover e Elizabeth Banks também fazem boas contribuições mas a verdadeira estrela do filme, para além do elenco masculino principal, é Jada Pinkett-Smith como Rome, uma antiga colega de Mike, aqui tornada mestre-de-cerimónias tanto do seu próprio clube de strip masculino como do espetáculo final que serve de clímax ao filme. Quando a ouvimos aliciar a audiência, é também a nós que ela alicia com a sua segura e poderosa interpretação, que não deixa de se manter no registo simples e despreocupado do filme. Sinceramente eu não me importava de ver um filme inteiro apenas sobre Rome.

 Como uma peça de entretenimento fácil, o filme é um magnífico sucesso, mas a sua estrutura, ou melhor a sua falta de estrutura, e o seu virtuosismo em todos os aspetos da sua criação elevam o filme acima da maioria do entretenimento simplista a que estamos, como audiência, normalmente habituados. O final é, em particular, uma ótima nota para terminar o filme. Aí vemos o grupo de amigos a observar o fogo-de-artificio do 4 de Julho. Focamo-nos nas suas faces e não no espetáculo pirotécnico. A câmara mostra-se quase reticente, quase realçando o modo como o que vimos não resolveu nenhuma das incertezas das suas personagens. Os seus desenhos e desejos não estão mais perto de se tornarem realidade, mas por momentos, nos momentos em que os acompanhamos, houve gozo, regozijo, alegria, divertimento, e um último grito de glória antes das suas vidas avançarem para o desconhecido. Um momento belo na sua simplicidade e leve melancolia, que termina uma das melhores e mais alegres experiências que tive nos cinemas este Verão.

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