sábado, 15 de agosto de 2015

STRANGERLAND (2014) de Kim Farrant



 Numa das imagens mais marcantes do primeiro filme de Kim Farrant, vemos uma paisagem desértica que enche toda a composição com uma mistura quase abstrata de areia dourada e sombras contrastantes rasgando a areia. Por esta paisagem vemos uma espécie de caminho traçado nas dunas, uma trilha irregular que ondula pelo deserto como se de um enorme serpente se tratasse. Numa imagem, o deserto transmuta-se numa besta nascida do deserto australiano.

 É neste mundo, em que a natureza se apresenta como uma ameaça omnipresente, que Lily (Maddison Brown) e Tommy Parker (Nicholas Hamilton) desaparecem uma noite. Ambos são os filhos de Catherine (Nicole Kidman) e Matthew Parker (Joseph Fiennes), compondo uma unidade familiar que, pelo início do filme, acabaram de se mudar para Nathgari, uma cidade remota rodeada pelo deserto que se expande imparável até ao horizonte. No passado da família, como é típico deste tipo de filme, parecem existir vários segredos, corroendo e infetando cada interação, cada momento que com eles passamos.

 Apesar desta premissa narrativa bastante comum, o filme desenrola o seu enredo num modo ambíguo e vago, criando um filtro de opacidade inescrutável por cima das figuras tanto da família como da comunidade. O final do filme acompanha este tipo de discurso quase evasivo, pelo que desaconselho o filme a quem quer que requeira explicações e resoluções definitivas para os seus filmes. Se tentarmos comparar Strangerland com outros filmes, é seguro dizer que está mais próximo de um Picnic at Hanging Rock que de um Prisoners.

 Para muitos membros da audiência, esta insistência em ambiguidade pode destruir a experiência do filme, que se apoia mais em paisagens quem em diálogos e cenas de exposição para fazer o seu impacto no público. Sendo um filme narrativo apoiado em personagens, isto é particularmente desconcertante quando as motivações dos humanos que passam pelo filme nos são persistentemente negadas, criando um filme em que os comportamentos, especialmente dos pais, parecem manifestar em comportamentos inexplicáveis. Se a família se encontra num mundo habitado por estranhos e ameaças, então também é assim o olhar da audiência sobre a trama do filme.

 Mas voltando à comparação com Picnic at Hanging Rock. Em ambos os filmes, um dos temas principais é a sexualidade feminina, mas enquanto o outro filme se desenrolava sobre a pátina do filme de época, este filme não tem tal filtro, sendo muito mais óbvio nas suas intenções. A filha e as suas escapadelas sexuais consomem todo o filme, tornando o seu pai numa figura errática e paranoica, a comunidade num júri silenciosamente moralista, e a sua mãe numa figura que se vai perdendo a si própria na sua tormenta pessoal.

 Num dos momentos mais impactantes do filme, observamos Nicole Kidman emergir nua do deserto, caminhando pela cidade sob o olhar horrorizado, curioso e lascivo dos seus habitantes. Ninguém a acode, até o seu marido aparecer e a cobrir com a sua camisa e guiar para fora dos olhares dos estranhos. A única pessoa que mesmo assim parece demonstrar alguma preocupação com a mulher desnuda e confusa é Coreen (Lisa Flanagen), uma mulher de origem aborígene. Nesta sociedade patriarcal, moralmente podre, a única pessoa que parece mostrar compaixão para com a vítima feminina é uma descendente dos nativos quase completamente exterminados pela colonização do passado. A perspetiva feminina da realizadora é particularmente bem-vinda em cenas como esta, nunca objetificando o corpo da atriz ou desviando o olhar da sua condição num mundo insistente em vitimizar as suas mulheres.

 Mais do que se envolver na trama do desaparecimento como outros policiais, o filme parece mais interessado em virar o seu olhar para a Austrália, tanto na sua condição de terra, de continente natural, como na sua condição de nação, de sociedade. Grandes ambições para um primeiro filme, que acabam, infelizmente, por causar alguns problemas ao filme. O ritmo da obra é particularmente problemático, e o desenvolvimento do enredo com a sua insistência em ambiguidades é digna de admiração e louvor, mas não se consegue evitar a impressão de que o filme necessitava de uma mão mais delicada e segura na sua execução.

 Em relação ao seu elenco, a impressão que deixam é forte na generalidade, sendo que Kidman é um particular píncaro. Em Catherine, Kidman consegue criar alguém de uma psicologia misteriosa e opaca, mas ao mesmo tempo visceral no seu desespero, confusão e conflito. A sugestão de um passado promíscuo é particularmente fascinante no trabalho de Kidman, mesmo nos seus momentos mais excessivos como quando enverga as roupas da sua filha, numa desconfortável cena de sedução. Os contrastes, contradições e ambiguidades do texto conseguem fazer sentido em Catherine devido ao trabalho da atriz. O mesmo não se pode dizer de Joseph Fiennes que se perde por entre as demandas do filme, oscilando entre quase vilania e sofrimento paterno, sem a delicadeza ou mestria do trabalho da sua coprotagonista. Isto deixa o filme particularmente desequilibrado, apesar do, já mencionado, bom trabalho do resto do elenco.


 Como primeiro trabalho da sua realizadora, o filme deixa-me expectante pelo seu trabalho futuro. Aqui, o seu trabalho a um nível formal é impressionante para uma estreante, criando um ambiente constantemente árido e sufocante, quase personificando a paisagem e tornando os interiores claustrofóbicos, não negando, no entanto, a beleza do ambiente circundante. Também é louvável o seu uso de som na criação de tensão ao longo do filme. Tenho assim esperanças que o seu próximo trabalho seja algo mais bem conseguido que Strangerland, sem, no entanto, negar que esta sua estreia é, já por si, uma obra com uma perspetiva interessante e chamativa.

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