domingo, 13 de setembro de 2015

CIKE NIE YINNIANG (2015) de Hou Hsiao-Hsien



 O novo filme do mestre taiwanês Hou Hsiao-Hsien não é, decerto, para usuais fãs de wuxia ou para pessoas aliciadas por qualquer promessa de ação, vinda do título e alguma publicidade do filme. Aliás, eu diria que esta primeira aventura do realizador por um dos mais famosos géneros do cinema chinês é, acima de tudo, uma continuação das preocupações artísticas do seu realizador que aqui reinterpreta o género quase que por completo. O projeto teve cerca de 25 anos de desenvolvimento e 7 anos de concretização, e mais que um épico de artes marciais adaptado de um conto de Pei Xing, o filme é um poema cinemático da autoria de Hou Hsiao-Hsien e um dos seus mais belos e formidáveis trabalhos.

 Apesar de existir como que uma reinterpretação e, talvez possamos dizer, subversão do cinema wuxia, A Assassina contém em si uma narrativa bastante típica do género, cheia de intrigas políticas e pessoais, traições e vinganças. No centro de tudo isto está a figura de Nie Yinniang (Qi Shu), uma jovem assassina encarregue de matar Tian Ji'na (Chen Chang), o seu primo, outrora noivo, e presente governador de Weibo, uma região independente do controlo imperial chinês. Desta premissa inicial desenrola-se um enredo com mudanças de lealdade, auto reflexões pessoais, uma esposa vingativa, uma concubina perseguida por magia, numerosas, mas breves, cenas de ação. De todo este enredo origina-se um filme distante, alienante na sua estranheza, mas profundamente humano apesar da sua frieza. A obra final, longe de ser um usual tratamento do enredo segundo as tradições do género, é como uma pintura magistral, tão bela como distante, tão fascinante como, por vezes, inescrutável.

 Qi Shu regressa à filmografia de Hou Hsiao-Hsien de novo como a protagonista da sua criação, concebendo sob as direções de um mestre, aquele que é, talvez, o seu mais fascinante trabalho até agora. A protagonista é caracterizada principalmente por uma quase inabalável inexpressão, uma reticência que a atriz parece partilhar com o filme, também este reticente no que diz respeito a emoções e exposição, mas não por isso são ambos menos eficazes ou esmagadores no seu esplendor. Esta é uma escolha obviamente deliberada e estudada e que vai sofrendo variações ao longo do filme, sendo que em dois momentos fulcrais as emoções e a dor física parecem se apoderar da performance da atriz. Esta assassina, demasiado humana para ser uma perfeita arma mortífera, torna-se uma personificação de dúvida e escolha no centro do filme, um paradoxo vivo de piedade e agressão sanguinária, uma humanidade pulsante que não permite deixar o filme e sua história se perderem em vazios exercícios estéticos.

 A assassina move-se pelo filme como uma pincelada de tinta-da-china numa aguarela viva, os pretos do filme tão profundos que parecem engolir a luz que se filtra e entrelaça pelos cenários naturais e artificiais com uma precisão e beleza incomuns. Há um primor sensorial na concretização do filme que é inegável. A paisagem sonora é tão meticulosa e perfeita como os visuais, incluindo a formidável fotografia que nos oferece momentos tão sublimes como essa pincelada que se movimenta pela imagem. Os cenários e figurinos de Wen-Ying Huang conferem uma textura e tatilidade absoluta ao filme, enchendo o frame de sedas ruidosas e camadas de transparências que enchem o olhar e os espaços interiores. Isto permite ao realizador um jogo estonteante de bidimensionalidade e tridimensionalidade na imagem, que por vezes apresenta, por exemplo, uma floresta como um conjunto plano de sombras e formas, noutras ocasiões explorando um interior na sua profundidade labiríntica e níveis de sombras e visibilidade. Há uma precisão e distanciação perfeccionista que torna o filme frio e belo, e algo supremamente especial, mesmo no contexto da obra do realizado. Por vezes a própria natureza parece obedecer à vontade do autor, enchendo um monte de névoa apenas quando apropriado para o ritmo da cena, tal é a perfeição formal desta obra.

 Numa imagem fortemente repetida ao longo do filme, a imagem da protagonista aparece por entre flutuantes cortinas bordadas. Primeiro nada vemos, depois uma sombra parece materializar-se, até que vemos a figura humana para a depois voltarmos a perder por entre esse jogo de luz, sombra e movimento. Tal momento parece converter a assassina numa sombra sobrenatural, injetando ao filme um misticismo e magia. Tais elementos sobrenaturais apenas se manifestam numa hipnotizante sequência em que acompanhamos um farrapo de fumo pelo palácio de Tian Ji'na, acabando por alcançar a sua concubina favorita (Hsieh Hsin-ying) e tornando-se numa sufocante nuvem de fumo. É magnífico, tornando o filme numa lenda de uma era sombria cheia de magia e desconhecido, um mito contado aqui por um mestre.

 Será possível observar no filme e nele encontrar uma mensagem política por entre a sua opacidade, sendo a relação entre Weibo e o império facilmente ligado à relação entre Taiwan e a República Popular da China, mas eu gostaria de me focar mais nessa opacidade narrativa em si. O enredo, a narrativa, é algo bastante difícil de percecionar completamente, sendo que o realizador parece ativamente trabalhar no sentido de tornar a intriga o mais fragmentada e nebulosa possível. Tal abordagem tem um efeito bastante paradoxal, por um lado frustra a audiência e torna a apreciação completa do filme algo difícil e trabalhoso, por outro isto também pede uma observação diferente à sua audiência, mais simples e visceral, mais sensorial.

 E desse tipo de observação, o filme emerge como um estudo formidável de movimento e ritmo. A obra decorre vagarosamente e cheia de contínuos movimentos, tão subtis como o balançar de uma câmara entre cortinas durante um diálogo. Uma serenidade visual tão dependente do movimento leve como da observação estática, sendo que tal harmonia é constantemente pontuada e cortada por ruturas no ritmo e movimento. Falo das cenas de violência e ação que acontecem em suprema brevidade e intensidade. Os movimentos são automáticos e baléticos, rápidos e explosivos, acabando tão depressa como começaram. O próprio enredo, nas suas repetições e lentidão, parece copiar e explorar o ritmo da circulação de informação numa corte, um ritmo humano e comunal transmitido e incorporado na forma do filme e no modo como a informação e as imagens coexistem num fluido e exato movimento rítmico.

 O vencedor do prémio este ano para melhor realizador no festival de Cannes, cria neste filme um exemplo de puro cinema. Quando rarefeito e reduzido, A Assassina é o cinema na sua mais gloriosa simplicidade. Som, cor, luz, movimento, tempo e ritmo, jogando em harmoniosa criação. É uma maravilha miraculosa que me deixa quase que extasiado na minha adoração, um filme que não será para todas as audiências e que desafiará muitas paciências, mas que, quando observado de uma certa perspetiva, tem em si contidos prazeres cinemáticos que raramente encontramos tão perfeitamente realizados, um filme sem compromissos ou transigências, uma obra segura, perfeita na concretização de uma visão de um autor, e um espetáculo magnífico. Movimento e ritmo como poucas vezes vistos no cinema contemporâneo, hipnotizante no seu estudo e no seu estilo, talvez o mais formalmente impressionante e esmagador filme do realizador. Viva o mestre Hou Hsiao-Hsien!


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