terça-feira, 13 de outubro de 2015

PRIDE & PREJUDICE (2005) de Joe Wright

 Pan, o mais recente filme de Joe Wright estreará esta semana nos cinemas nacionais. Devido a isto, decidi aventurar-me num olhar ao seu trabalho passado, sendo que aqui temos alguns pensamentos em relação ao seu primeiro filme.


 Em 2005, 10 anos depois da explosão de filmes adaptados da obra de Jane Austen ter tido início em 1995, o projeto de mais uma adaptação da obra mais famosa da autora deverá ter sido recebido com algum ceticismo. Seria mesmo necessária outra adaptação do icónico romance? Haveria ainda possibilidade alguma de se trazer algo de novo à história de amor de Mr. Darcy e Elizabeth Bennett? A resposta lógica seria um inequívoco não, mas então apareceu a versão de Orgulho e Preconceito de Joe Wright, um realizador que até então tinha trabalhado exclusivamente em televisão, e ambas as questões foram respondidas com um forte e jubilante sim.

 Mas o que torna a versão de Wright algo tão interessante e essencial no panorama das adaptações cinematográficas da obra de Austen? Eu diria que tal resposta se encontra na sua abordagem singular ao material, fugindo da respeitabilidade séria e importante que caracteriza a maioria destas adaptações. Não temos aqui um estudo imersivo e preciso da sociedade de uma época ou uma obra de prestígio literário, como podemos encontrar no cinema de época de James Ivory, por exemplo, mas sim algo bastante diferente. Há uma vitalidade que Wright injeta no material com mais de 200 anos de existência, que tem por consequência um filme cheio de um dinamismo energético e uma perspetiva claramente contemporânea sobre um romance do passado. Quando entramos, com a câmara, em Longbourn não encontramos uma pintura de repressão social de tempos ancestrais, mas sim uma casa em que as hormonas adolescentes parecem permear o ar e em que as pessoas correm de divisão para divisão, por entre mobília atafulhada pelas salas e raios de sol que aquecem visivelmente o espaço, enquanto ouvimos risos e gritos a vir de todas as direções.

 A partir de uma adaptação bastante sintética da obra seminal de Austen, Wright cria uma experiência de brilhante tatilidade ao espetador. Há algo de imediato no modo como a câmara se está sempre a mover em cuidadas coreografias que lembram os ímpetos baléticos na obra futura de Wright, mas que aqui estão sempre modulados com uma certa energia grosseira e incerta que permite ao filme manter uma certa jovialidade mesmo no ritmo dos seus movimentos. Uma das coisas que também conferem ao filme um impacto tão particular é a gentileza de Wright no que diz respeito ao avançar do conhecido enredo. Enquanto outros realizadores pegariam na complexa trama e tentariam encher o filme de eficiente informação, Wright enche o seu filme de pausas contemplativas e momentos de uro relaxamento tanto para as personagens como para a audiência. Se algum filme na história do cinema conseguiu capturar a experiência de fechar os olhos e sentir o calor na face durante uma tarde de Verão, é este filme (e talvez Partie de Campagne de Renoir, se formos honestos). Mas, apesar de tal indulgência em vitalidade e simples prazeres, o texto e a direção de Wright nunca perdem de vista a apaixonante emoção do romance nem o facto de que o que realmente move a maioria do enredo é um jogo de interesse monetários, estatutos e títulos, mostrando aqui uma notável sagacidade na adaptação de um dos mais abertamente satíricos livros de Austen.

 A ajudar ao sucesso do filme temos um formidável elenco que, seguindo a tradição deste tipo de adaptação literária de luxo, contém em si uma coletânea de variados nomes sonantes e respeitados, aqui misturados com um considerável número de jovens atores e atrizes em início de carreira, entre eles uma jovem Carey Mulligan. Com tantos outros atores a terem interpretado anteriormente os seus papéis, o elenco consegue, surpreendentemente, deixar a sua marca interpretativa sobre as suas célebres personagens, sendo que Donald Sutherland como Mr. Bennett, Brenda Blethyn como Mrs. Bennett e Rosamund Pike como Jane Bennett e Tom Hollander são de especial menção. Sutherland, uma das mais estranhas escolhas no elenco, é simplesmente perfeito, imbuindo cada momento em cena com uma mistura de amor paternal e aborrecimento arrogante, não se deixando cair em caricatura mas mantendo uma admirável ternura e sentimentalidade pulsante nos seus momentos mais intensos. Blethyn está em completo modo de caricatura gritante, temperando, no entanto, o seu retrato com momentos de curiosa calma e perspicácia, revelando a exímia, se bem que desastrada, jogadora social que Mrs. Bennett almeja ser. Pike é de louvar pela sua simplicidade calma e serena, personificando a leveza do filme ao mesmo tempo que deixando trespassar emoções dolorosas pela sua fachada em momentos de vulnerabilidade, que apenas ganham mais impacto com a sua serenidade geral. Hollander interpreta o malfadado Mr. Collins com um palpável desconforto, tornando a pomposidade característica da figura numa miserável defesa pessoal abrasiva e desagradável.

 Mas quem realmente carrega o filme são os dois protagonistas do romance principal do filme, Matthew Macfayden como Mr. Darcy e Keira Knightley como Elizabeth Bennett. Macfayden tem de enfrentar o facto de estar na insuperável sombra de Colin Firth, que em 1995 definiu o papel de Mr. Darcy, mas é indubitavelmente sólido no seu trabalho, injetando um desconforto social que trai a usual elegância e severidade vista nesse celebre herói romântico. Mas é Knightley que tem de carregar o filme nas suas costas, sendo que, pelo menos para mim, ela o faz de modo extraordinário. Tal como a direção de Wright, a presença da atriz é definitivamente contemporânea, sendo que nunca parece almejar à fidedignidade histórica e comportamental de outras adaptações de Austen como Sensibilidade e Bom Senso de Ang Lee. Ao invés disso Knightley é um turbilhão de energia imatura e efusiva, sendo um retrato extraordinário de uma volátil jovem sempre com o brilho da inteligência a iluminar-lhe o olhar, os seus momentos mais nervosos e melancólicos são especialmente bem conseguidos, tornando Lizzy numa adolescente emocional sob a forma de uma heroína de filme de época. Em paradoxo com isto, há uma postura e maturidade sempre presentes no seu trabalho, especialmente nas cenas em coletivo familiar, tornando-a uma Elizabeth Bennett singular, bastante diferente da versão livresca, mas espetacularmente perfeita para o filme em que se encontra.

 Essa adolescência emocional espalha-se por todo o filme, havendo um certo lado juvenil e impetuoso em todos os aspetos do filme. Veja-se uma das mais serenas sequências do filme, numa galeria de esculturas neoclássicas em Pemberley. Knightley, vestida em tons claros, deambula por entre as figuras marmóreas e a câmara toma o seu olhar e desliza pelas curvas desses mesmos corpos enquanto a luxuriante música de Dario Marianelli sedutoramente embala a audiência. Há uma curiosidade impetuosa na cena mesclada com a serenidade visual e rítmica que a cena traz ao filme nesse particular momento. O olhar contém em si uma certa carnalidade e fogosidade silenciosa, como que tornando as imagens, frias nas mãos de outro autor, numa perfeita mostra de subtil mas intensa paixão jovem. Mas não é só em tais momentos de elegância e calma que o filme mostra a sua impetuosidade estilística e impulsos adolescentes. Veja-se o lado grosseiro que o filme parece querer sempre revelar nas suas personagens, quer seja a terrível habilidade no piano de Lizzy, os risos infantis das irmãs mais novas, o visível suor que mancha os vestidos de algodão ou mesmo a montagem que em cenas, como a primeira festa do filme, parece explodir em energia divertida, sem grandes preocupações de continuidade, mas sim uma sede por vitalidade e dinamismo, tanto humorístico como emocional.

 O desenho da cenografia e dos figurinos é tão crucial como a fotografia, a música e a montagem, dando uma visão interessantemente incomum da época. Essa mescla de grosseiro e elegante volta aqui a ocorrer, não se limitando Sarah Greenwood e Jacqueline Durran a recriarem uma época histórica. Os quartos de Longbourn são desastres decorativos com peças que não combinam, e uma vivência e idade palpáveis, há uma desordem expressiva em toda a casa, contrastando com outros momentos de esplendorosa elegância neoclássica, mesmo assim apimentada com escolhas menos historicamente verosímeis do que poderiam ser, mas, talvez mesmo por essa falta de verosimilhança, maravilhosamente expressivas. Os figurinos, variadas vezes acusados de serem atrocidades em termos de história, trazem uma visão de expressividade juvenil e contemporânea ao final do século XVIII, e são essenciais na criação do ambiente do filme, tanto na rudeza dos vestidos em tons terrenos de Elizabeth, como no ossificado peso de Judi Dench como uma aristocrata arrogante, ou na brancura de um baile em que Wright se deixa levar pelos seus mais exuberantes impulsos estilísticos, deixando a camara dançar com os atores e isolando as figuras românticas numa sequencia de desavergonhado romanticismo cinemático.

 Este Orgulho e Preconceito não é uma adaptação particularmente subtil ou mesmo complexa, mas é uma rajada de ar fresco no que diz respeito a Austen em cinema. Para muitos esta perspetiva adolescente contemporânea de um dos mais célebres clássicos de literatura inglesa será algo quase sacrílego, mas para este membro da audiência, é impossível não me deixar seduzir pela visão de Wright e simplesmente me deixar levar pelos seus movimentos baléticos, música orgástica e imagética que ferve de romantismo e emoção ebuliente.
                

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